Artigo para o Livro "Por que Bollas?", Coleção Grandes Psicanalistas, Editora Zagodoni, 2024.
O inconsciente receptivo como fonte da criatividade
[André Breton] em seu hospital de malucos está tocado e horrorizado ao ver pacientes que são melhores poetas do que ele.
(Diário do amigo, Théodore Fraenkel)
Ao chegar em Viena em 1921, André Breton, então com 25 anos, ficou dias rondando a casa de Freud na Berggasse, 19 sem coragem de tocar a campainha; alguma coisa o segurava. Havia ido à Áustria com o firme propósito de encontrar um ídolo, aquele que sua vanguarda surrealista com Dalí e companhia elegeria, à revelia de Freud, como uma espécie de patrono sagrado.¹
A essa altura, Breton considerava que tinha conhecimento psicanalítico suficiente para ser recebido como um igual por Freud. Médico de formação, Breton tinha contato com a obra freudiana desde 1916 quan-
do se transferiu de Nantes para a o centro neuropsiquiátrico de Saint-Dizier. Mas, na verdade, esse contato se dera através de comentadores como Emmanuel Régis e Angélo Hesnard, cuja leitura de Freud não era das mais seguras, além de demais influenciada por Jean Janet. A obrade Freud apenas começava a ser traduzida para o francês naquele ano
de 1921.¹
do se transferiu de Nantes para a o centro neuropsiquiátrico de Saint-Dizier. Mas, na verdade, esse contato se dera através de comentadores como Emmanuel Régis e Angélo Hesnard, cuja leitura de Freud não era das mais seguras, além de demais influenciada por Jean Janet. A obrade Freud apenas começava a ser traduzida para o francês naquele ano
de 1921.¹
Mesmo assim, Breton pisou determinado em Viena; enxergava uma relação tão grande entre a psicanálise e a análise de sonhos freudiana e seus métodos artísticos de escrita e discurso automático como construção poética que nem chegou a colocar em questão se Freud iria se interessar por ele. Buscava um parceiro-cientista que, como ele, estivesse interessado em estudar o núcleo da criatividade humana, aquele sem-limites de criações imagéticas que apareciam nos sonhos, quando a consciência era posta de lado.
O encontro se deu no dia 9 de outubro de 1921 e foi tão frustrante que Breton o remoeria, amargo, pelo resto da vida. Ele foi recebido por um médico cético, que o considerava apenas um jovem artista, apressa-
do para encerrar a conversa e atender seu próximo paciente.
O encontro se deu no dia 9 de outubro de 1921 e foi tão frustrante que Breton o remoeria, amargo, pelo resto da vida. Ele foi recebido por um médico cético, que o considerava apenas um jovem artista, apressa-
do para encerrar a conversa e atender seu próximo paciente.
Qual a origem de um desencontro tão radical entre esses dois médicos, ambos interessados por arte e literatura, Breton versado em alguma psicanálise, com destaque para os sonhos e a associação livre, tão caros a Freud? Que núcleo criativo era esse que Breton enxergava tão claramente posto no sistema teórico freudiano? Qual era o elemento faltante que fez com que seu entusiamo encontrasse apenas indiferença
no velho Freud?
no velho Freud?
Christopher Bollas escreve em Psicanálise e Criatividade (Bollas, 2010) que Freud subestimou o método que havia criado, tal qual “um astrônomo que, maravilhado com a descoberta do telescópio, se per-
de naquilo que vê, ele estava naturalmente mais interessado em suas descobertas com o uso do seu método do que no método em si”. Estava, talvez, excitado demais com os resultados clínicos da análise do inconsciente que relegou o aspecto criativo do inconsciente à ideia de sublimação das pulsões: a criatividade (prioritariamente artística, para
Freud) é um dos destinos da pulsão, mas que não é a única forma de expressar a potencialidade criativa do inconsciente.
de naquilo que vê, ele estava naturalmente mais interessado em suas descobertas com o uso do seu método do que no método em si”. Estava, talvez, excitado demais com os resultados clínicos da análise do inconsciente que relegou o aspecto criativo do inconsciente à ideia de sublimação das pulsões: a criatividade (prioritariamente artística, para
Freud) é um dos destinos da pulsão, mas que não é a única forma de expressar a potencialidade criativa do inconsciente.
Bollas considera a realidade externa, intersubjetiva e material, como um campo rico de peças para o quebra-cabeças da elaboração e do desdobramento do self. O inconsciente quando não é excessivamente diminuído pelo recalcamento expressa a sua sede por objetos com os quais possa se ligar e transformar-se numa fonte inesgotável de opções, de alternativas autorais, de soluções singulares. É disso que Breton es-
tava atrás quando foi visitar Freud em Viena. Mas Bollas leva além: a criatividade do self não é apenas artística; é uma capacidade inventiva e elaborativa da vida viva.
tava atrás quando foi visitar Freud em Viena. Mas Bollas leva além: a criatividade do self não é apenas artística; é uma capacidade inventiva e elaborativa da vida viva.
Para entendermos essa mudança radical de ponto de vista da relação entre mundo interno/externo é preciso voltar ao livro Being a Character (1993) no qual Bollas pontua o conceito de genera. Nesse trabalho, ele começa pensando além do princípio do prazer, com uma análise do mecanismo do trauma. Aponta como este se configura como uma parte razoavelmente separada (excindida) do Ego inconsciente, ganhando assim vida autônoma na psique. A partir do evento traumático, esse núcleo passará a buscar ativamente conteúdos internos e objetos externos que tenham relação com o trauma, a fim de repeti-lo/elaborá-lo.
Todos nós já vimos isso na clínica. Internamente, o núcleo traumático, tal qual uma força gravitacional, arregimenta conteúdos inconscientes associados ao trauma, tornando esse núcleo maior e mais operativo na psique. Por ser cindido, ele opera à margem do resto do Ego consciente e inconsciente, e tende, se não elaborado, a ocupar cada vez mais espaço na vida do sujeito. O tratamento de traumas é sempre muito complicado, porque esse núcleo cindido instala o dinamismo da repetição que deixa de ser um repetir para elaborar e vai, cada vez mais se tornando um dinamismo da pulsão de morte, fortalecendo o dinamis-
mo de um repetir por repetir.
mo de um repetir por repetir.
O núcleo traumático vai buscar objetos no mundo externo que possam reeditar o evento traumático. Isto se revela nas situações dos pacientes que se encontram “por acaso”, de novo e de novo, em situações similares ao grande evento traumático do passado, numa repetição com características “demoníacas”, para citar Freud em Além do Princípio do Prazer.
O que Bollas faz, de modo bem freudiano, é considerar toda essa potencialidade de atração do núcleo traumático do psiquismo como um dinamismo interno, mas vai propor a existência de um núcleo análogo
ao núcleo traumático que busca, também ativa e inconscientemente, a elaboração criativa do trauma. A esse núcleo ele dá o nome de genera.
A genera seleciona do mundo exterior objetos associativamente relacionados a conteúdos do self, exatamente da mesma maneira que o inconsciente faz para formar os sonhos: objetos “úteis” à criação do sonho são selecionados e guardados, deslocados e condensados – remixados – sem que a consciência se dê conta. A partir dessa captura de objetos, o self poderá se expressar como fenômeno, na relação que o
sujeito desenvolve com esses objetos.
ao núcleo traumático que busca, também ativa e inconscientemente, a elaboração criativa do trauma. A esse núcleo ele dá o nome de genera.
A genera seleciona do mundo exterior objetos associativamente relacionados a conteúdos do self, exatamente da mesma maneira que o inconsciente faz para formar os sonhos: objetos “úteis” à criação do sonho são selecionados e guardados, deslocados e condensados – remixados – sem que a consciência se dê conta. A partir dessa captura de objetos, o self poderá se expressar como fenômeno, na relação que o
sujeito desenvolve com esses objetos.
Esse é um fenômeno muito recorrente na clínica: um paciente aparece com uma descoberta, uma ideia nova, algo do mundo que sempre esteve ali, mas que, agora, o arrebata. Se conseguirmos resistir a interpretar essa relação objetal como sintomática ou maníaca, poderemos ver, com o passar do tempo, novas soluções para a vida sendo criadas pelo paciente, um desdobrar de mundos possíveis a partir de um processo que o encontro com tal objeto engendrou. É preciso diferenciar processos de desdobramento do self de uma crise de mania. Percebamos que o que Bollas propõe é mesmo um novo modelo
metapsicológico. Ele mesmo nomeia (Ibid., 1993) a teoria das generacomo diferente dos modelos exclusivamente pensados para a investigação dos processos patológicos.
metapsicológico. Ele mesmo nomeia (Ibid., 1993) a teoria das generacomo diferente dos modelos exclusivamente pensados para a investigação dos processos patológicos.
Em China em mente (2022), Bollas vai dizer que Freud recalcou o fato de que o setting psicanalítico é uma recriação encenada da relação entre a mãe e o bebê. Podemos, na mesma linha, dizer que Freud recalcou todo o potencial de suas descobertas no que tem relação com a criatividade, a expansão da mente e não com a cura de adoecimentos.
Aqui está o núcleo do desencontro entre Freud e Breton – este tentou trazer para Freud algo que estava recalcado – e todos nós sabemos que defesas que são levantadas com uma “interpretação” assim tão direta.
Tendo as genera como base, Bollas propõe então um complemento à teoria do recalque: a teoria do inconsciente receptivo. O inconsciente bollasiano não é feito apenas de ideias recalcadas, mas também de objetos recebidos, buscados e guardados ativamente: é o inconsciente receptivo, talvez a proposição mais revolucionária de Bollas.93 Além e aquém do processo cognitivo consciente, essa inteligência inconsciente
aparece tanto como uma capacidade artística (com o risco de cair no maneirismo, caso uma síntese seja rapidamente exigida, – como Bollas julga ter acontecido com o surrealismo de Breton e outras vanguardas artísticas do início do século XX94) quanto como uma capacidade criativa paralela à parte inconsciente do Ego, que imprime um caráter criativo e autoral aos elementos da vida cotidiana. O contato com o verdadeiro self e o sentir-se real e verdadeiro só acontece para o nosso autor a partir do desenvolvimento dessa criatividade.
Aqui está o núcleo do desencontro entre Freud e Breton – este tentou trazer para Freud algo que estava recalcado – e todos nós sabemos que defesas que são levantadas com uma “interpretação” assim tão direta.
Tendo as genera como base, Bollas propõe então um complemento à teoria do recalque: a teoria do inconsciente receptivo. O inconsciente bollasiano não é feito apenas de ideias recalcadas, mas também de objetos recebidos, buscados e guardados ativamente: é o inconsciente receptivo, talvez a proposição mais revolucionária de Bollas.93 Além e aquém do processo cognitivo consciente, essa inteligência inconsciente
aparece tanto como uma capacidade artística (com o risco de cair no maneirismo, caso uma síntese seja rapidamente exigida, – como Bollas julga ter acontecido com o surrealismo de Breton e outras vanguardas artísticas do início do século XX94) quanto como uma capacidade criativa paralela à parte inconsciente do Ego, que imprime um caráter criativo e autoral aos elementos da vida cotidiana. O contato com o verdadeiro self e o sentir-se real e verdadeiro só acontece para o nosso autor a partir do desenvolvimento dessa criatividade.
Duas questões muito interessantes surgem com essas descobertas: primeiro, por que todo esse trabalho elaborativo e de desdobramento do núcleo da psique precisa ser feito abaixo da linha da consciência (e
quais suas consequências no manejo clínico)? Segundo, como conceber este núcleo da personalidade, o verdadeiro self, tão ativo e tão determinante para um bom trabalho analítico quanto à elaboração de núcleos
neuróticos, psicóticos e traumáticos?
quais suas consequências no manejo clínico)? Segundo, como conceber este núcleo da personalidade, o verdadeiro self, tão ativo e tão determinante para um bom trabalho analítico quanto à elaboração de núcleos
neuróticos, psicóticos e traumáticos?
Nesse modelo do inconsciente receptivo, o trabalho psíquico pode ser pensado como estando amparado por uma inteligência do inconsciente diferente do inconsciente recalcante/recalcado, que dará origem
aos sintomas. Assim, há fenômenos inconscientes que não precisam ser decifrados e interpretados, mas sim protegidos. Recalque e recepção inconsciente, ambos mantêm as ideias inconscientes protegidas das anticatexias conscientes, mas o fazem de formas muito diferentes. E o que a consciência faria com essas ideias que, de alguma maneira, precisam se esconder dela? No recalque, sabemos que o que é protegida é uma
ideia que não é admissível para o Superego e precisa ser substituída por um sintoma através de uma solução de compromisso. Na recepção, a ideia é protegida não por ser imoral e inadmissível para parte do Ego, mas sim para não ser atrapalhada por um processo consciente precoce. Na minha leitura, Bollas considera que as associações de ideias decorrentes do inconsciente receptivo e da potência atrativa das
genera estariam ameaçadas pela censura ou pelo desdém da consciência, caso aparecessem cedo demais em toda a sua exuberância. Entendo que
os elementos adaptativos do falso self concorreriam contra a elaboração inconsciente de partes do self que levam a formas singulares de ser e de
relacionar-se. Existir de forma singular é também ser excêntrico, girar fora do eixo, algo que é cada vez menos valorizado na nossa sociedade
em que os sucessos são medidos por métricas universais opressivas.
O inconsciente então incubaria as associações produzidas pelo verdadeiro self com a ajuda dos objetos capturados pelas genera até que
esse conglomerado tivesse sustentação ideativa e mobilização afetiva suficiente para ser apresentado ao mundo e poder aguentar o encontro com a realidade (externa e interna). O conjunto associativo de ideias inconscientes articuladas aos objetos do mundo pode ser atropelado por um processo precoce de síntese – as sínteses são a mais típica exigência do mundo atual, por exemplo, através da pergunta “como isso vai dar dinheiro?” – interrompendo o fluxo criativo e fazendo-o sucumbir facilmente a julgamentos externos e internos.
aos sintomas. Assim, há fenômenos inconscientes que não precisam ser decifrados e interpretados, mas sim protegidos. Recalque e recepção inconsciente, ambos mantêm as ideias inconscientes protegidas das anticatexias conscientes, mas o fazem de formas muito diferentes. E o que a consciência faria com essas ideias que, de alguma maneira, precisam se esconder dela? No recalque, sabemos que o que é protegida é uma
ideia que não é admissível para o Superego e precisa ser substituída por um sintoma através de uma solução de compromisso. Na recepção, a ideia é protegida não por ser imoral e inadmissível para parte do Ego, mas sim para não ser atrapalhada por um processo consciente precoce. Na minha leitura, Bollas considera que as associações de ideias decorrentes do inconsciente receptivo e da potência atrativa das
genera estariam ameaçadas pela censura ou pelo desdém da consciência, caso aparecessem cedo demais em toda a sua exuberância. Entendo que
os elementos adaptativos do falso self concorreriam contra a elaboração inconsciente de partes do self que levam a formas singulares de ser e de
relacionar-se. Existir de forma singular é também ser excêntrico, girar fora do eixo, algo que é cada vez menos valorizado na nossa sociedade
em que os sucessos são medidos por métricas universais opressivas.
O inconsciente então incubaria as associações produzidas pelo verdadeiro self com a ajuda dos objetos capturados pelas genera até que
esse conglomerado tivesse sustentação ideativa e mobilização afetiva suficiente para ser apresentado ao mundo e poder aguentar o encontro com a realidade (externa e interna). O conjunto associativo de ideias inconscientes articuladas aos objetos do mundo pode ser atropelado por um processo precoce de síntese – as sínteses são a mais típica exigência do mundo atual, por exemplo, através da pergunta “como isso vai dar dinheiro?” – interrompendo o fluxo criativo e fazendo-o sucumbir facilmente a julgamentos externos e internos.
Na clínica, essas formações psíquicas precisam ser não apenas protegidas, mas devem ser celebradas. Bollas dedica um capítulo inteiro do livro Forces of Destiny (Bollas, 2019, I, Cap. 4) à questão. O analista é um interlocutor privilegiado não só dos sintomas, mas também das formações do verdadeiro self do paciente. Nesse capítulo, Bollas narra de que forma usa os sentimentos contratransferenciais para reagir de maneira espontânea à produção de um paciente. Ele ri de uma curta brincadeira que o paciente faz e justifica isto de maneira simples e chocante: riu porque achou graça. O que está funcionando aqui é a celebração – no timing certo, sem o atraso que a intromissão da consciência imporia – de uma formação psíquica que Bollas considerou estar vindo da articulação do verdadeiro self do paciente com um objeto que o mundo lhe proporcionava.
Tanto Freud quanto Lacan eram pensadores paternocêntricos que negligenciaram o estudo da importância da mãe e o lugar da criança nessa política. Na era da ordem materna, a mãe comunica ao bebê através de ações, e não de palavras, os caminhos para o ser e o relacionar-se. Essas ações causarão fortes impressões no bebê, mas de nenhuma maneira governarão definitivamente aquele ser do self, já que o bebê aportará a essas lições existenciais suas próprias disposições. Algumas leis maternas serão estruturantes, algumas serão alteradas pelo self infantil para se
acomodarem ao idioma do self, e outras serão contrariadas pela criança através de axiomas antimaternos. [Ibid, 2022, p. 84, grifo meu]
Percebamos assim que, no setting analítico, não devemos estar atentos apenas às necessidades infantis colocadas de maneira não verbal, mas também – para alguns, principalmente – às necessidades estéticas do self infantil que não tiveram interlocução ou recepção do ambiente primário. É um trabalho fino, no âmbito da contratransferência, ouvir a fala do paciente como uma sinfonia e procurar as notas únicas, dissonantes. Estou convencido de que, para Bollas, o processo de autorrealização, o desdobramento e a expansão do verdadeiro self, tudo isso implica uma excentricidade. A marca registrada do self, o Made in Germany freudiano97 (que em Freud significava apenas o resgate do recalcado”) é a singularidade e portanto a criatividade e o desenvolvimento da própria capacidade autoral. O psicanalista pode ser o aliado eleito dessa mistura inicialmente estranha.
Uma rápida vinheta clínica: uma paciente me procura muito entristecida porque havia abandonado a dança e o canto, paixões desde criança, por conta da demandante faculdade de fisioterapia e o posterior trabalho nessa área. Achava que a fisioterapeuta estava matando a artista que existia dentro de si, algo que tinha certeza de que ainda amava. Queixava-se de que foi se deixando levar pela fisioterapia (profissão em que ela tinha bastante sucesso, inclusive financeiro) e se afastando de sua verdadeira paixão, a arte. Com algum tempo de análise, ela foi lembrando que a fisioterapia
não havia sido um acidente de percurso, como pensava. Recordou os cinco longos anos em que pegava o ônibus às cinco horas da manhã
para chegar até a faculdade e depois na residência, no Hospital das Clínicas. Uma memória esquecida apareceu: lembrou-se criança, talvez 6 ou 7 anos, montando um eletroestimulador de papelão, equipamento que vira a fisioterapeuta da mãe aplicar no joelho desta.
De fato, tinha havido muito investimento libidinal na fisioterapia e esta, por si só não era ameaça nenhuma ao lado cantora e dançarina do self. Esse insight permitiu que ela integrasse essas duas facetas do
self: foi trabalhar com fisioterapia para companhias de musicais, voltou a fazer aulas de canto e dança, preparou um material e voltou a inscrever-se para seletivas de musicais.
Para alguns pacientes, essa é a radical proposta clínica bollasiana: considerar que as produções abaixo da linha da consciência deixem de ser apenas objeto de interpretação e passem a ser alvo de curiosidade
e facilitação através do processo analítico. Menos interpretação e mais uma investigação antropológica brincante: os sentimentos contratransferenciais não são apenas fonte de insight para o analista, mas ensejam um campo de ações criativas por parte deste.
É muito difícil compartimentar o pensamento de Bollas ao comentá-lo. Todas as proposições teóricas parecem estar ligadas e orbitando ao redor de um grande núcleo, de uma inteligência psíquica inconsciente e essencial: genera, inconsciente receptivo, pulsão de destino, objetos evocativos e tantos outros conceitos que apontam para uma existência que busca alteridades, multiplicidades e a criatividade que fomos
perdendo pelo caminho civilizatório ocidental capitalista e nivelador.95 Mas resta um esclarecimento a respeito desse núcleo de genera, seria ele, o que conteria? Recorro a um trecho de China em mente em que
fica claríssimo que Bollas, através de sua leitura criativa, transforma Winicott, que por sua vez transformou criativamente Freud e Lacan:
e facilitação através do processo analítico. Menos interpretação e mais uma investigação antropológica brincante: os sentimentos contratransferenciais não são apenas fonte de insight para o analista, mas ensejam um campo de ações criativas por parte deste.
É muito difícil compartimentar o pensamento de Bollas ao comentá-lo. Todas as proposições teóricas parecem estar ligadas e orbitando ao redor de um grande núcleo, de uma inteligência psíquica inconsciente e essencial: genera, inconsciente receptivo, pulsão de destino, objetos evocativos e tantos outros conceitos que apontam para uma existência que busca alteridades, multiplicidades e a criatividade que fomos
perdendo pelo caminho civilizatório ocidental capitalista e nivelador.95 Mas resta um esclarecimento a respeito desse núcleo de genera, seria ele, o que conteria? Recorro a um trecho de China em mente em que
fica claríssimo que Bollas, através de sua leitura criativa, transforma Winicott, que por sua vez transformou criativamente Freud e Lacan:
Tanto Freud quanto Lacan eram pensadores paternocêntricos que negligenciaram o estudo da importância da mãe e o lugar da criança nessa política. Na era da ordem materna, a mãe comunica ao bebê através de ações, e não de palavras, os caminhos para o ser e o relacionar-se. Essas ações causarão fortes impressões no bebê, mas de nenhuma maneira governarão definitivamente aquele ser do self, já que o bebê aportará a essas lições existenciais suas próprias disposições. Algumas leis maternas serão estruturantes, algumas serão alteradas pelo self infantil para se
acomodarem ao idioma do self, e outras serão contrariadas pela criança através de axiomas antimaternos. [Ibid, 2022, p. 84, grifo meu]
Apesar de colocar, como Winnicott, a relação mãe/bebê em primeiríssimo plano no processo de autoengendramento, Bollas não enxergaque a mãe seja a única a transmitir ao bebê as normas do ser e do relacionar-se. Na verdade, o que existe é uma negociação entre mãe e bebê, entre axiomas maternos e axiomas já inscritos no psiquismo do bebê quando do nascimento, podendo estes serem inclusive axiomas
antimaternos.
Sim, Bollas defende que o bebê não é tábula rasa, mas sim uma potência, uma estética em potencial, um idioma a ser articulado, um fingerprint. Cada indivíduo é tão singular quanto sua impressão digital – infinitas variações dos mesmos rodopios da pele dos dedos, mas aqui em forma de soluções, necessidades e desejos para a vida.
No mesmo Forces of destiny, Bollas dedica uma parte inteira (Parte I) para a defesa da singularidade de cada ser humano. Elege a palavra idioma (idiom) para dar nome não a um dicionário particular, mas a uma estética que nasce com cada bebê em forma de potência. Mais
do que atender as necessidades do bebê, a função do ambiente seria facilitar o desenvolvimento, o desdobramento dessa potência estética.
Aqui não importa onde esse bebê tenha nascido, em que cultura, em que lugar do planeta ou do tempo. Guardadas as necessidades básicas, o verdadeiro self procurará objetos e incomodará o restante da psique
com a sua necessidade de desdobramento.96
antimaternos.
Sim, Bollas defende que o bebê não é tábula rasa, mas sim uma potência, uma estética em potencial, um idioma a ser articulado, um fingerprint. Cada indivíduo é tão singular quanto sua impressão digital – infinitas variações dos mesmos rodopios da pele dos dedos, mas aqui em forma de soluções, necessidades e desejos para a vida.
No mesmo Forces of destiny, Bollas dedica uma parte inteira (Parte I) para a defesa da singularidade de cada ser humano. Elege a palavra idioma (idiom) para dar nome não a um dicionário particular, mas a uma estética que nasce com cada bebê em forma de potência. Mais
do que atender as necessidades do bebê, a função do ambiente seria facilitar o desenvolvimento, o desdobramento dessa potência estética.
Aqui não importa onde esse bebê tenha nascido, em que cultura, em que lugar do planeta ou do tempo. Guardadas as necessidades básicas, o verdadeiro self procurará objetos e incomodará o restante da psique
com a sua necessidade de desdobramento.96
Percebamos assim que, no setting analítico, não devemos estar atentos apenas às necessidades infantis colocadas de maneira não verbal, mas também – para alguns, principalmente – às necessidades estéticas do self infantil que não tiveram interlocução ou recepção do ambiente primário. É um trabalho fino, no âmbito da contratransferência, ouvir a fala do paciente como uma sinfonia e procurar as notas únicas, dissonantes. Estou convencido de que, para Bollas, o processo de autorrealização, o desdobramento e a expansão do verdadeiro self, tudo isso implica uma excentricidade. A marca registrada do self, o Made in Germany freudiano97 (que em Freud significava apenas o resgate do recalcado”) é a singularidade e portanto a criatividade e o desenvolvimento da própria capacidade autoral. O psicanalista pode ser o aliado eleito dessa mistura inicialmente estranha.
Uma rápida vinheta clínica: uma paciente me procura muito entristecida porque havia abandonado a dança e o canto, paixões desde criança, por conta da demandante faculdade de fisioterapia e o posterior trabalho nessa área. Achava que a fisioterapeuta estava matando a artista que existia dentro de si, algo que tinha certeza de que ainda amava. Queixava-se de que foi se deixando levar pela fisioterapia (profissão em que ela tinha bastante sucesso, inclusive financeiro) e se afastando de sua verdadeira paixão, a arte. Com algum tempo de análise, ela foi lembrando que a fisioterapia
não havia sido um acidente de percurso, como pensava. Recordou os cinco longos anos em que pegava o ônibus às cinco horas da manhã
para chegar até a faculdade e depois na residência, no Hospital das Clínicas. Uma memória esquecida apareceu: lembrou-se criança, talvez 6 ou 7 anos, montando um eletroestimulador de papelão, equipamento que vira a fisioterapeuta da mãe aplicar no joelho desta.
De fato, tinha havido muito investimento libidinal na fisioterapia e esta, por si só não era ameaça nenhuma ao lado cantora e dançarina do self. Esse insight permitiu que ela integrasse essas duas facetas do
self: foi trabalhar com fisioterapia para companhias de musicais, voltou a fazer aulas de canto e dança, preparou um material e voltou a inscrever-se para seletivas de musicais.
A cena definitiva desse caso acontece durante uma aula de canto: o professor – um figurão desse metiê – estava explicando como deveria ser o movimento do diafragma para se alcançar uma determinada nota.
Minha paciente então complementa a explicação, melhorando-a. Sim, porque ela já havia visto, já havia pegado num diafragma humano nas aulas de anatomia; também conhecia, de cor, o grupamento muscular
do qual o diafragma faz parte, seus movimentos e suas funcionalidades, aprendidos na prática no atendimento a pacientes com questões respiratórias.
Ela havia se tornado um híbrido excêntrico: uma artista-fisioterapeuta, uma cantora que cantava melhor porque era fisioterapeuta. Esta descoberta foi possível pois pude celebrar o verdadeiro self da paciente
em suas duas faces: a artista e a fisioterapeuta.
Minha paciente então complementa a explicação, melhorando-a. Sim, porque ela já havia visto, já havia pegado num diafragma humano nas aulas de anatomia; também conhecia, de cor, o grupamento muscular
do qual o diafragma faz parte, seus movimentos e suas funcionalidades, aprendidos na prática no atendimento a pacientes com questões respiratórias.
Ela havia se tornado um híbrido excêntrico: uma artista-fisioterapeuta, uma cantora que cantava melhor porque era fisioterapeuta. Esta descoberta foi possível pois pude celebrar o verdadeiro self da paciente
em suas duas faces: a artista e a fisioterapeuta.
Tivesse André Breton nascido muitas décadas depois, teria rondado a casa de Christopher Bollas, que hoje mora nos Estados Unidos. Talvez tergiversasse, mas ao tocar a campainha seria recebido com muito interesse por um outro pesquisador da criatividade humana, do
idioma singular de cada indivíduo. E se tivesse os mesmos 40 anos de diferença para Bollas, como quando encontrou o velho Freud em Viena, talvez recebesse um pito: não importa a síntese numa obra, mas um desdobramento contínuo do self, do berço ao túmulo.
idioma singular de cada indivíduo. E se tivesse os mesmos 40 anos de diferença para Bollas, como quando encontrou o velho Freud em Viena, talvez recebesse um pito: não importa a síntese numa obra, mas um desdobramento contínuo do self, do berço ao túmulo.
Apresentação da Coleção
Daniel Kupermann,
Professor Livre-docente do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), coordenador da Coleção Grandes Psicanalistas
Professor Livre-docente do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), coordenador da Coleção Grandes Psicanalistas
A Coleção Grandes Psicanalistas tem a ambição não apenas de apresentar ao leitor as principais coordenadas das obras dos autores nela tratados, mas também de situá-las em nosso tempo e em nosso contexto cultural.
Ao propormos uma pergunta comum que comparece já no título de todos os seus volumes, pretendemos revelar o lugar e a inserção de cada autor no campo psicanalítico – sua filiação singular ao pensamento freudiano –, bem como indicar de que maneira o contato com suas ideias contribui para o entendimento dos problemas que nossa época suscita e para a clínica do mal-estar con-
temporâneo.
temporâneo.